Mulheres preferem chefe homem - 08/06/2008


Mulheres preferem chefe homem
Pesquisa da UnB aponta que elas ainda encontram dificuldades para ascender na carreira e ocupar cargos de liderança
Rodrigo Ferrari
“Pouco a pouco, as mulheres estão dominando o mercado de trabalho”. Esta é uma frase que estamos acostumados a ouvir a torto e direito e que quase ninguém questiona. Pelo contrário: na maioria das vezes, a gente até concorda. Afinal, quem não conhece alguém que não seja chefiado por um indivíduo do sexo feminino?

O que a maioria das pessoas não sabe é que por trás dos discursos igualitários existe um complexo mecanismo de exclusão, que dificulta - e muito - a ascensão dos mulheres no mercado de trabalho.

Estudo realizado recentemente pela pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Amanda Zauli-Fellows, com funcionários da Câmara do Deputados, constatou que as oportunidades de ocupar cargos de direção são menores para elas do que para eles. Hoje, apenas um quarto dos cargos de chefia da Casa é ocupado por mulheres, embora quase metade do quadro de funcionários do órgão seja composto por indivíduos do sexo feminino.

Apesar de toda essa disparidade, a pesquisa constatou que a maioria dos servidores da Câmara (tanto do sexo masculino quanto do feminino) afirmou que as mulheres têm a mesma capacidade que os homens para ser chefes.

“Para os participantes da pesquisa, o que importa é a competência dos indivíduos, independentemente de serem homens ou mulheres”, explica Zauli-Fellows. Mas essa visão, aparentemente igualitária, esconde uma séria contradição.

A pesquisa constatou que 85% das mulheres e 95% dos homens preferem ser chefiados por indivíduos do sexo masculino. “Há uma contradição entre o discurso e a prática”, afirma Zauli-Fellows.

Para ela, esse discurso é um reflexo da cultura do patriarcalismo na sociedade brasileira. “As desigualdades existem e isso é fácil de ser notado. Apesar disso, as pessoas afirmam crer que as oportunidades são as mesmas para todos”, pondera ela. O estudo apontou que a discriminação costuma ser mais percebida pelas funcionárias que se encontram fora dos cargos de chefia. “Já entre as que estão em posições de liderança, a percepção é de que todos têm as mesmas chances de subir na carreira”, relata Zauli-Fellows.


Naturalização das diferenças

O professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru Luiz Carlos Canêo lembra que existe na sociedade brasileira uma visão biologizante dos gêneros. “Historicamente, o papel da mulher foi definido como ela sendo mais sensível, dócil e propensa a trabalhos manuais. O homem, por outro lado, seria mais objetivo, competitivo e focado e resultados práticos”, explica.

“Na cultura ocidental, a mulher tem ocupado, ao longo dos tempos, o espaço privado (gineceu, em grego) e o homem tem se ocupado dos negócios públicos (da ágora, espaço onde eram deliberados os assuntos de Estado na democracia ateniense)”, lembra a historiadora e pesquisadora da Unesp de Assis Lilian Henrique Azevedo.
 
08/06/2008
Mão-de-obra feminina sempre foi usada
 
Rodrigo Ferrari
Embora muita gente não saiba, a presença dos indivíduos do sexo feminino no mercado é um fenômeno bastante antigo. “Se pensamos em termos das sociedades pré-capitalistas, as mulheres pobres sempre trabalharam. As escravas, por exemplo, executavam inúmeras tarefas no dia-a-dia e sequer recebiam por isso”, lembra a historiadora e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis Lilian Henrique Azevedo.

De acordo com ela, trabalho era algo interdito apenas para as mulheres da elite. A incorporação da mão-de-obra feminina teria se intensificado no final do século 19, com o desenvolvimento do capitalismo. “Só que isso se deu em campos restritos - como a docência, por exemplo -, quase sempre em decorrência da falta de trabalhadores homens para executar tais tarefas”, salienta. Nos períodos das duas guerras mundiais (a primeira, entre 1914 e 1919, e a segunda, entre 1939 e 1945), a busca por mão-de-obra feminina aumentou ainda mais

“De 1945 em diante, fatores como a forte expansão econômica registrada nos países ocidentais e a luta das mulheres por direitos fizeram com que elas sejam definitivamente incorporadas ao mundo do trabalho”, explica.

O problema, de acordo com Azevedo, é que, a partir de então, as mulheres passaram a estar sujeitas a cargos de menor expressão ou subempregos, recebendo salários bem mais baixos que o dos homens.
08/06/2008
Todos podem liderar, diz pesquisador
Professor de psicologia explica que as empresas modernas procuram chefes criativos e de comportamento flexível
Rodrigo Ferrari

Geralmente associados a um estereótipo masculino, os cargos de chefia podem, em tese, ser ocupados por qualquer pessoa, independentemente do sexo, explica o professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru Luiz Carlos Canêo.

“Em geral, as empresas modernas procuram pessoas criativas e que tenham flexibilidade de comportamento, vontade de continuar aprendendo, capacidade de decidir, bom nível cultural e disposição para atuar em grupo”, diz Canêo.

“Levando-se em conta essas características, fica a pergunta: quem foi que disse que uma mulher não pode chefiar?”, questiona o professor. De acordo com ele, a tendência, nas empresas do século 21 (que valorizam os funcionários enquanto seres humanos integrais), é de que as diferenças de gênero deixem de ser preponderantes na hora de definir se uma pessoa ocupará ou não um cargo de liderança.

“Nas corporações do século 21 - que, ao contrário das empresas tayloristas, encaram o funcionário como seres pensantes (e não como mera força de trabalho) -, o chefe é uma espécie de educador: coordena equipes, define metas de atuação, compartilha responsabilidades com os subordinados. É como se fosse o maestro de uma equipe com foco em resultados objetivos”, lembra.


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Fala-povo


Você prefere ser chefiado por homens ou mulheres?

“Depende do chefe: se for bom, não interessa se é homem ou mulher” - Fernando Ferreira Sanavio, 27 anos, fiscal de loja.


“Além de achar legal ver mulheres em cargo de chefia, considero que elas são mais fáceis de se lidar” - Beatriz Maia, 20 anos, estudante.


“Prefiro homens, pois eles são mais flexíveis para se lidar” - Cleusa de Jesus dos Santos, 47 anos, técnica de enfermagem.


“Nunca tive chefe mulher, mas para mim isso é uma questão indiferente. O importante é a pessoa ter liderança” - Idvanoe de Castro, 32 anos, farmacêutico.


“Prefiro mulheres, pois elas demonstram maior capacidade de liderança quando se tornam chefes” - Vanessa Garcia, 19 anos, auxiliar de vendas.


“Prefiro mulheres, pois elas são mais compreensivas e melhores para se dialogar” - João Carlos da Silva, 48 anos, jornalista.

Fonte: Jornal da Cidade / Bauru