Uma guerra invertida entre os sexos, por José Eustáquio Diniz Alves

19/10/2010 12:23

 

 Fiz questão de ficar fora do debate sobre as eleições gerais e presidenciais, até agora, porque minha posição como educadora e formadora de opinião pode ser vista como partidária. Nesse ponto faço questão de dizer que sou, a priori, apartidária e, se fosse possível, assumiria meu, quem sabe ainda o faça um dia, lado anarquista.

Mas o caso que se apresenta pelos meios de comunicação de massa me assusta em vista do terrorismo fundamentalista religioso - ou pseudo - sobre uma questão que me é pessoalmente muito cara, como os que já me conhecem, sabem, que é sobre a descriminalização do aborto.

Penso que está aí a grande marcha para a hipocrisia. E, de acordo com outras marchas no passado da história brasileira, pode resultar em uma não tão saborosa estória para contarmos aos nossos netos. Eu não tenho orgulho nenhum em ter nascido num tempo em que uma geração foi massacrada em seus princípios de liberdade de pensamento por uma tacanha ideia de progressismo fundado em um falso moralismo capitalizado por um ideário que nem ao menos sabia o que era esse país.

Essa cultura do medo hipócrita, ignorante, tacanha já deu provas mais do que suficientes que não funciona para o modelo de país que eu desejo e tento ajudar a construir. Respeito as religiões e nem acredito que muitos dos que estão se arvorando por aí estejam de fato representando direito ou conheçam direito seus respectivos credos.

O mínimo que peço aos que proclamam alguma fé é que leiam melhor os textos que consideram sagrados ou fundamentais para a sua doutrina e respeitem os demais textos sagrados para os outros, inclusive respeitem o direito das mulheres em decidirem o que devem decidir sobre suas vidas, pois a questão do aborto é muito séria para uma mulher para ser banalizada como vem sendo, é uma questão de saúde pública, é tão antiga quanto a própria humanidade e não pode, não deve ser carta de jogo político, tampouco será algo passível de ser excluído da humanidade por decreto ou proibição legal.  Lílian Azevedo, 19/10/2010.

 

  

"As questões de gênero nunca tiveram tanta importância como nestas eleições de 2010. (...) Se Dilma vencer, será uma vitória liderada pelos homens; se Serra ganhar, será uma vitória liderada pelas mulheres. Em 31 de outubro saberemos o resultado desta guerra invertida entre os sexos", afirma o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, em artigo publicado com exclusividade pela Agência Patrícia Galvão.

Professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, José Eustáquio desmente a antiga visão de que as mulheres não possuem autonomia e capacidade de influenciar o resultado de uma eleição. Para isso, o demógrafo apóia-se nos dados das últimas pesquisas de intenção de voto para Presidência divulgadas pelos principais institutos de pesquisa do país, que mostram que as mulheres não seguem os homens e têm opinião própria na hora de decidir seu voto.

Os dados das pesquisas de intenção de voto por sexo apontam que Dilma Rousseff não conseguiu reduzir a diferença de votos que tinha entre mulheres e homens, e as mulheres acabaram levando a eleição para o segundo turno. "Quer seja pela questão ecológica, pelo tema da ética na política, pela questão de gênero ou pela questão religiosa, o fato é que as mulheres não seguiram os homens e não permitiram que eles decidissem a eleição no primeiro turno", afirma José Eustáquio.

Para o pesquisador, "as eleições presidenciais de 2010 estão mostrando que a relação entre sexo e gênero é mais complexa do que a maioria dos analistas imaginava. (...) Em termos sociológicos, parece existir uma anomia de gênero neste segundo turno das eleições, pois não tem havido convergência entre o comportamento eleitoral masculino e o feminino. Na verdade, o inusitado é que o eleitorado masculino está votando, preferencialmene, em uma mulher e o eleitorado feminino está votando, preferencialmente, em um homem."

Leia o artigo na íntegra: as_diferencas_de_sexo_e_genero_eleicoes_2010_jeustaquio-1.doc (44,5 kB)

Fonte: http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=928&catid=80